Daqui até a eternidade

flauta

Conheci o amor da minha vida em 2002. Eu tinha 7 anos. Nos casamos e nunca nos separamos. Mas nossa história vem de muito antes. Acho impossível dizer meu primeiro contato com a música, afinal, sendo neta de pianista tenho fotos minhas tocando piano com menos de dois anos de idade. Eu me lembro de episódios.

Quando minha avó me deu um teclado de brinquedo de Natal. Ele tinha varias músicas gravadas – inclusive a primeira vez que ouvi “Let It Be” dos Beatles foi nele – e fazia sons divertidíssimos. Eu amava esse teclado. Minha mãe odiava. Na época também ganhei um xilofone, um triângulo e uma flauta doce. Eu era uma banda ambulante em casa.

Fui estudar mesmo só aos sete anos quando minha avó me colocou em um curso de iniciação musical. Lá aprendi a teoria básica, conheci diversos instrumentos e optei pelo violino. Coitado, deixei esse amor de lado quando a diretora da escola sugeriu que eu fizesse flauta transversal antes. E foi assim que eu me apaixonei perdidamente pela flauta e nunca mais a abandonei.

Assim esse amor sofreu trancos e barrancos. Nos primeiros anos era difícil nos aceitarmos. Eu a achava muito complicada e ela me achava muito preguiçosa. Com o tempo, amadureci e percebi que ela não era complicada, só precisava ser descoberta. Assim, fomos nos aproximando cada vez mais, nos tornando íntimas e uma só. Como se ela fosse uma extensão do meu corpo.

A flauta foi uma parte do meu amor pela música. A sonoridade, suas letras e melodias são o que me encantam de verdade. Seja nos eruditos que me seguem até hoje, como Tchaikovsky e Bach, até o rock clássico herdado do meu pai, e o pop que aprendi na adolescência. Acho impossível passar um dia distante dela. Se eu não ouço, eu mesma faço, seja em um repeat eterno na minha cabeça, no assobio ou de qualquer forma que o som seja preenchido de beleza.

Fui criada em uma família regada à música. Minha avó é artista plástica, e tem um aparelho de som em seu ateliê e diversos CDs. Meu avô, apesar de ser engenheiro, é pianista. Sempre estava tocando alguma coisa, ou ouvindo. Nunca havia silêncio. Meus anos-novos na praia eram sempre no maio samba e bossa nova, no aparelho de som e no violão, piano e vozes da família. Não tinha forma de escapar.

Assim ela sempre esteve ao meu lado, durante a gravidez quando meu pai e minha mãe cantavam as músicas do Fantasma da Ópera para mim, minha infância influenciada pelo gosto da minha família (e Sandy e Junior), uma adolescência que tentava fugir do que foi imposto pelo pop rok/pop, e o início da minha vida adulta, agora, onde procuro não um estilo que seja minha personalidade e musicas que me agradem. Mas sim, músicas que me encantem, seja pop, rock, erudita, jazz, o que vier e minha alma sorrir.

Por isso, leitor ou leitora, vou te contar três casos de “eargasm”, que pode ser traduzido como um “orgasmo musical”. É quando a alma sorri para a música. O primeiro foi quando eu ouvi “Innuendo”, do Queen, com meu pai. A banda é uma das minhas favoritas, e sempre gostei e ouvi muito as músicas geniais do quarteto. Não posso afirmar que essa foi a primeira vez que ouvi a música, mas foi a primeira vez que parei para prestar atenção nela.

Estava no carro com meu pai, voltando da minha aula à noite. Temos os três CDs do Greatest Hits do Queen, e sempre ouvíamos o Volume 1. Naquela noite, era o Volume 3 tocando. Foi quando meu pai me avisou que colocaria em uma das melhores músicas que ele conhece. E “Innuendo” começou a tocar. De início, nada muito diferente do sorriso que sempre dou para Queen. Mas foi diferente. A música avançava e minha alma se abria, sorria escancarada. Eu estava inteira arrepiada e perplexa com aquele som. A música era emoção, era tudo para mim naquele momento. Até hoje, anos depois, quando ouço a música fico arrepiada e com os olhos marejados de lágrimas.

Outra ocasião foi quando assisti o balé “O Lago Dos Cisnes”, infelizmente no computador. As músicas são conhecidas por quase todo mundo e estavam saturadas por causa do belíssimo filme “O Cisne Negro”. Eu estava doente e sozinha em casa. Entrei embaixo das cobertas, meu gato deitou no meu colo e dei play. Em cinco minutos eu estava aos prantos. O balé é música visual. A emoção de Tchaikovsky era tremenda, e minha alma chorava, tremia e eu não sabia o que dizer.

A última foi no cursinho. Talvez, o momento e a matéria estudada ajudaram minha reação. Em História do Brasil estávamos estudando a Ditadura Militar. A matéria, por si só, já é emocionante. O professor levou diversas músicas do período, de muitos músicos que sofreram com a repressão. Eu comecei a chorar em “Roda Viva”, do Chico Buarque. Eram músicas que eu ouvia desde pequena e não sabia o seu verdadeiro significado. Mas foi ouvindo Debaixo dos Caracois De Seus Cabelos, interpretada por Caetano Veloso, que eu tive o “eargasm”. Tudo fazia sentido junto. A história, a letra, a melodia, a voz. Estava tudo casado.

Mas só ouvir música para mim não basta. Precisava entendê-la, estudá-la. Continuei meus estudos de flauta transversal e teoria musical, mas isso não suficiente, eu precisava compartilhar. Entrei em um conjunto de jovens estudantes de música. O repertório era “música popular”. Samba, rock, jazz… Tudo o que nossos instrumentos tocassem. Na época comecei a tocar como convidada da orquestra da escola de música. Que delícia compartilhar esse sentimento, esse amor.

No conjunto conheci pessoas incríveis. Que levam a música como vida, ou apenas como hobby. Aprendi muito, mais do que imaginei. Superei a vergonha que meu amor me impunha, e a flauta se tornou minha maior aliada, minha força. Eu e meus amigos conversávamos em notas, sons e partituras. Aprendíamos e crescíamos juntos. E a música estava sempre presente em nossos passos. Amizades que levo até hoje, e ainda me inspiram com Herbie Hancock para os dias que mais preciso de uma alma sorridente.

Com essa história de crescer e fazer uma faculdade eu fui deixando minha flauta  e a música um pouco mais de canto que o normal. Vestibular superado e a mudança para outra cidade. Não trouxe a flauta comigo. Não tive coragem de tirá-la de sua verdadeira casa (e ainda incomodar os meus vizinhos de prédio). E sinto falta dela todo dia. Do gelado da sua superfície que vai ficando cada vez mais morna, das chaves abertas que deixam meus dedos marcados, da falta de fôlego que dá de vez em quando, e do som, principalmente do som.

Eu e meu amor nos separamos um pouco. Não é um divórcio e nem nada definitivo. É um tempo para organizarmos nossas vidas, mas ainda sinto aquele prazer magnífico de me encontrar com ela. Sei que teremos o nosso belo relacionamento novamente, mas está difícil. Espero que ela me perdoe por deixá-la de lado nesses momentos, afinal, ela sempre esteve ao meu lado quando eu quis e precisei. Vamos voltar, tenho certeza disso.

Sobre meu amor… Acho que é evidente que estou fugindo sobre falar sobre ela. Já tentei várias vezes falar sobre. Mas percebi que sobre música não se fala. Se toca, se ouve e se sente. Não adianta eu escrever palavras e sentimentos e não tocá-los e senti-los. Preciso fazer minha alma sorrir antes de “musicar” e escrever por aí.

Por isso, apesar da distância, espero estar sempre com ela ao meu lado. Marquei meu amor na pele, uma clave de sol nas costas. Para quando ela não estiver comigo em presença, estará comigo em memória. Para quando eu mais precisar, eu me lembrar dela. Para me dar forças de nos unirmos novamente com força, e sem dificuldades dessa vez. Para mostrar para o mundo o verdadeiro amor da minha vida.

Último texto que escrevi para a faculdade em 2014. Mas é também um texto que escrevi para a vida.

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