Espelho Torto

10.10.2013

O espelho torto me encarava. Eu despida olhava a imagem refletida nele. Os olhos pareciam nunca piscar. O espelho torto distorcia a imagem.

Os lábios semi-abertos (e a pontinha do dente aparecia, semelhante a um coelho), as mãos inquietas com os esmaltes gastos, a espinha indesejável que surgiu, as manchinhas na pele, a barriga magra (mas não mais tão magra), os buracos que se formam em suas costelas, os ossos saltados e o cabelo longo e indeciso.

Tudo isso estava distorcido. Na verdade, tudo isso parecia errado. Parecia estranho.

O espelho torto não distorcia a imagem; ele a recriava. A distorção, o torto, não era o espelho; era o reflexo.

As sobrancelhas se erguiam, a face fazia caretas e tentava não esboçar espanto. O corpo molhado, recém saído do banho, não apresentava mudanças (talvez só o cabelo, mais escuro e mais longo, e a face mais clara).

A água refletia a luz e o espelho torto. A toalha enrolada parecia querer esconder o diferente. A cara lavada parecia natural a isso.

Mas tudo continuava igual: os ossos saltados, as manchas na pele, os buracos nas costelas.

E o espelho torto parecia rir, enquanto observava a cena. Os dentes de coelho sorriam também.

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