O dia que eu descobri que era bonita

Foto de felicidade (e saudades da praia)

Não faz muito tempo que me olhei no espelho e me achei bonita. Na verdade, desde então, comecei a perceber mais nisso, mas mesmo assim não foram muitas vezes. Na correria do dia-a-dia eu permaneço com a cara de uva passa e não me importo muito. Notei isso pela primeira vez enquanto terminava de me arrumar para sair. Mas a primeira vez que eu percebi isso eu já tinha 20 anos.

Quando eu era mais nova era impossível eu me sentir bonita. Usava aparelho fixo, tinha (tenho) dentes pequenos, sou baixinha, um peito maior que a média (as meninas eram tábuas e eu já tinha um certo volume), sem bunda padrão mulher-fruta, magrelinha, cabelo estilo Hermione no primeiro filme, espinhas na pele (por favor, puberdade né) e realmente não ligava muito para o que eu vestia. Na verdade eu me vestia da maneira certa, como me sentia confortável.

Sempre achei todas as minhas amigas muito mais bonitas do que eu. Elas têm cabelos incríveis, peles lindas, roupas maravilhosas e, de brinde, todas são super inteligentes e legais. Eu achava péssimo ser o patinho feio no meio desse bando de cisnes. E não, eu não estava prestes a me tornar um cisne. E só piorava quando eu abria qualquer revista adolescente com suas incríveis dicas de como disfarçar suas características super normais para que você se encaixasse naquele padrão modelete que eles vendiam.

Na verdade isso de me achar bonita não é todo dia. Uma olhada no espelho, um cabelo mais ondulado, um batom vermelho, ou a foto certa. Mesmo assim ainda rola no fundo aquela coisa de “ai to péssima” e derivados. Óbvio que desde que me aproximei do feminismo (e comecei a ler mais sobre) me sinto mais confortável no meu corpo e tem me ajudado a achar essa beleza todo dia. Mas não é uma tarefa fácil.

Ouvir um elogio é uma coisa muito gostosa. Vai, todo mundo adora. Eu nem sei lidar com elogios, fico vermelha, tento sorrir mas acabo fazendo alguma careta, enfim. Não era o tipo de coisa que estava muito acostumada a ouvir, o que eu ouvia mais era “você ta muito magra”, “você engordou”, “essa roupa é ok”, “quando você tira o aparelho?”,” você não passa maquiagem?” (não, e ainda não passo), “por que não corta e faz progressiva no cabelo?”. É, para uma cabecinha de 13/14 anos isso não é fácil de digerir. Um “adorei sua roupa” e “você está bonita” me fazem ganhar o dia.

Demorei pra perceber que eu sou bonita porque tudo isso ainda estava aqui dentro. Um dia que o cabelo não ajudava e já pensava em cortar, fazer hidratação, progressiva, raspar, comprar peruca, etc. Quando não consigo encontrar uma roupa legal para vestir já fico desanimada. Para fazer compras então, pior ainda. A calça serve de um lado, mas não de outro. A camiseta é linda, mas não cabe nos peitos. É difícil ser fora do padrão quando todas as roupas servem um padrão difícil de ser alcançado.

Já tinha me achado bonitinha algumas vezes (de novo: desde que comecei a ler mais sobre feminismo etc), mas ainda era uma coisa rara e só em dias que eu estava de bom humor. Me senti bonita verdadeiramente, de dar até aquele sorrisinho pro espelho, no ano novo. Sim, esse ano novo. Parecia até boba, nunca tinha me achado bonita assim – só bonitinha, ok. Confesso: foi uma sensação incrível. Deve ser maravilhoso se sentir bonita todo dia.

Gosto de me achar bonita nos 1,57m, magreza estranha, peitos, sem bunda, cabelo Hermione, dente pequeno e usando as roupas que me deixam confortável. Gosto de me achar bonita fora do padrão. E tem sido uma descoberta maravilhosa essa beleza.

Anúncios

Daqui até a eternidade

flauta

Conheci o amor da minha vida em 2002. Eu tinha 7 anos. Nos casamos e nunca nos separamos. Mas nossa história vem de muito antes. Acho impossível dizer meu primeiro contato com a música, afinal, sendo neta de pianista tenho fotos minhas tocando piano com menos de dois anos de idade. Eu me lembro de episódios.

Quando minha avó me deu um teclado de brinquedo de Natal. Ele tinha varias músicas gravadas – inclusive a primeira vez que ouvi “Let It Be” dos Beatles foi nele – e fazia sons divertidíssimos. Eu amava esse teclado. Minha mãe odiava. Na época também ganhei um xilofone, um triângulo e uma flauta doce. Eu era uma banda ambulante em casa.

Fui estudar mesmo só aos sete anos quando minha avó me colocou em um curso de iniciação musical. Lá aprendi a teoria básica, conheci diversos instrumentos e optei pelo violino. Coitado, deixei esse amor de lado quando a diretora da escola sugeriu que eu fizesse flauta transversal antes. E foi assim que eu me apaixonei perdidamente pela flauta e nunca mais a abandonei.

Assim esse amor sofreu trancos e barrancos. Nos primeiros anos era difícil nos aceitarmos. Eu a achava muito complicada e ela me achava muito preguiçosa. Com o tempo, amadureci e percebi que ela não era complicada, só precisava ser descoberta. Assim, fomos nos aproximando cada vez mais, nos tornando íntimas e uma só. Como se ela fosse uma extensão do meu corpo.

A flauta foi uma parte do meu amor pela música. A sonoridade, suas letras e melodias são o que me encantam de verdade. Seja nos eruditos que me seguem até hoje, como Tchaikovsky e Bach, até o rock clássico herdado do meu pai, e o pop que aprendi na adolescência. Acho impossível passar um dia distante dela. Se eu não ouço, eu mesma faço, seja em um repeat eterno na minha cabeça, no assobio ou de qualquer forma que o som seja preenchido de beleza.

Fui criada em uma família regada à música. Minha avó é artista plástica, e tem um aparelho de som em seu ateliê e diversos CDs. Meu avô, apesar de ser engenheiro, é pianista. Sempre estava tocando alguma coisa, ou ouvindo. Nunca havia silêncio. Meus anos-novos na praia eram sempre no maio samba e bossa nova, no aparelho de som e no violão, piano e vozes da família. Não tinha forma de escapar.

Assim ela sempre esteve ao meu lado, durante a gravidez quando meu pai e minha mãe cantavam as músicas do Fantasma da Ópera para mim, minha infância influenciada pelo gosto da minha família (e Sandy e Junior), uma adolescência que tentava fugir do que foi imposto pelo pop rok/pop, e o início da minha vida adulta, agora, onde procuro não um estilo que seja minha personalidade e musicas que me agradem. Mas sim, músicas que me encantem, seja pop, rock, erudita, jazz, o que vier e minha alma sorrir.

Por isso, leitor ou leitora, vou te contar três casos de “eargasm”, que pode ser traduzido como um “orgasmo musical”. É quando a alma sorri para a música. O primeiro foi quando eu ouvi “Innuendo”, do Queen, com meu pai. A banda é uma das minhas favoritas, e sempre gostei e ouvi muito as músicas geniais do quarteto. Não posso afirmar que essa foi a primeira vez que ouvi a música, mas foi a primeira vez que parei para prestar atenção nela.

Estava no carro com meu pai, voltando da minha aula à noite. Temos os três CDs do Greatest Hits do Queen, e sempre ouvíamos o Volume 1. Naquela noite, era o Volume 3 tocando. Foi quando meu pai me avisou que colocaria em uma das melhores músicas que ele conhece. E “Innuendo” começou a tocar. De início, nada muito diferente do sorriso que sempre dou para Queen. Mas foi diferente. A música avançava e minha alma se abria, sorria escancarada. Eu estava inteira arrepiada e perplexa com aquele som. A música era emoção, era tudo para mim naquele momento. Até hoje, anos depois, quando ouço a música fico arrepiada e com os olhos marejados de lágrimas.

Outra ocasião foi quando assisti o balé “O Lago Dos Cisnes”, infelizmente no computador. As músicas são conhecidas por quase todo mundo e estavam saturadas por causa do belíssimo filme “O Cisne Negro”. Eu estava doente e sozinha em casa. Entrei embaixo das cobertas, meu gato deitou no meu colo e dei play. Em cinco minutos eu estava aos prantos. O balé é música visual. A emoção de Tchaikovsky era tremenda, e minha alma chorava, tremia e eu não sabia o que dizer.

A última foi no cursinho. Talvez, o momento e a matéria estudada ajudaram minha reação. Em História do Brasil estávamos estudando a Ditadura Militar. A matéria, por si só, já é emocionante. O professor levou diversas músicas do período, de muitos músicos que sofreram com a repressão. Eu comecei a chorar em “Roda Viva”, do Chico Buarque. Eram músicas que eu ouvia desde pequena e não sabia o seu verdadeiro significado. Mas foi ouvindo Debaixo dos Caracois De Seus Cabelos, interpretada por Caetano Veloso, que eu tive o “eargasm”. Tudo fazia sentido junto. A história, a letra, a melodia, a voz. Estava tudo casado.

Mas só ouvir música para mim não basta. Precisava entendê-la, estudá-la. Continuei meus estudos de flauta transversal e teoria musical, mas isso não suficiente, eu precisava compartilhar. Entrei em um conjunto de jovens estudantes de música. O repertório era “música popular”. Samba, rock, jazz… Tudo o que nossos instrumentos tocassem. Na época comecei a tocar como convidada da orquestra da escola de música. Que delícia compartilhar esse sentimento, esse amor.

No conjunto conheci pessoas incríveis. Que levam a música como vida, ou apenas como hobby. Aprendi muito, mais do que imaginei. Superei a vergonha que meu amor me impunha, e a flauta se tornou minha maior aliada, minha força. Eu e meus amigos conversávamos em notas, sons e partituras. Aprendíamos e crescíamos juntos. E a música estava sempre presente em nossos passos. Amizades que levo até hoje, e ainda me inspiram com Herbie Hancock para os dias que mais preciso de uma alma sorridente.

Com essa história de crescer e fazer uma faculdade eu fui deixando minha flauta  e a música um pouco mais de canto que o normal. Vestibular superado e a mudança para outra cidade. Não trouxe a flauta comigo. Não tive coragem de tirá-la de sua verdadeira casa (e ainda incomodar os meus vizinhos de prédio). E sinto falta dela todo dia. Do gelado da sua superfície que vai ficando cada vez mais morna, das chaves abertas que deixam meus dedos marcados, da falta de fôlego que dá de vez em quando, e do som, principalmente do som.

Eu e meu amor nos separamos um pouco. Não é um divórcio e nem nada definitivo. É um tempo para organizarmos nossas vidas, mas ainda sinto aquele prazer magnífico de me encontrar com ela. Sei que teremos o nosso belo relacionamento novamente, mas está difícil. Espero que ela me perdoe por deixá-la de lado nesses momentos, afinal, ela sempre esteve ao meu lado quando eu quis e precisei. Vamos voltar, tenho certeza disso.

Sobre meu amor… Acho que é evidente que estou fugindo sobre falar sobre ela. Já tentei várias vezes falar sobre. Mas percebi que sobre música não se fala. Se toca, se ouve e se sente. Não adianta eu escrever palavras e sentimentos e não tocá-los e senti-los. Preciso fazer minha alma sorrir antes de “musicar” e escrever por aí.

Por isso, apesar da distância, espero estar sempre com ela ao meu lado. Marquei meu amor na pele, uma clave de sol nas costas. Para quando ela não estiver comigo em presença, estará comigo em memória. Para quando eu mais precisar, eu me lembrar dela. Para me dar forças de nos unirmos novamente com força, e sem dificuldades dessa vez. Para mostrar para o mundo o verdadeiro amor da minha vida.

Último texto que escrevi para a faculdade em 2014. Mas é também um texto que escrevi para a vida.

Vamos falar de tabus sim!

10599412_814615698583566_3145243448368224578_n

Maconha é um tabu. Shhhhh, fala baixo. E use um ‘apelido’ para a erva, afinal, seu nome de verdade é muito… Estigmatizado.
Fomos todos criados sob as regras dos tabus. Meninas não podem falar de sexo, meninos não podem chorar. Quando eu era mais nova, só de ouvir coisas relacionadas a sexo eu já achava um absurdo, e ao mesmo tempo, amigos da mesma idade faziam piadinhas e já tinham pornô no celular. Enquanto isso, se eu chorasse na escola era “coitadinha”, se um menino chorasse era “viado”. Sim, com “i”.
Por muito tempo me reprimi (e sei que vocês também) a falar sobre muitas coisas. Falar e fazer. Mas calma, já chego lá. Falar de drogas? Jamais! Quantos caras já beijei/transei? Jamais! Sexo? Jamais! Sentimentos? Jamais! O que eu penso de verdade? Jamais! Beijar alguém do mesmo sexo? Jamais!
Ah, antes que eu esqueça, você não pode pensar. Não, não pode. Você só pode reproduzir o que lhe foi dito.
Agora fazer é diferente. Falar não pode, fazer também não, mas e a curiosidade? E o gostinho de proibido? Fazer fazem, mas não têm a coragem de admitir. Admitir o que? Que já fizeram algo que é “errado”? Mas… errado por que? Aí que tá!
Quero poder falar de maconha, sexo, bebida, quantas pessoas beijei, homossexualidade, aborto, sobre meus sentimentos. Ah, sentimentos!
Sentimento é um tabu. É feio sentir. Ter qualquer tipo de sentimento, positivo ou negativo te faz mal e é errado na sociedade atual onde todxs devemos ser frios e racionais. Adeus por a culpa no coração. Talvez seja por isso que as comédias românticas fazem tanto sucesso, afinal as pessoas negam essa “magia” em suas vidas, e só a veem através de filmes e livros mamão com açúcar.
Nunca entendi porque algumas coisas são tabus. Por que quando eu era mais nova não podia falar sobre sexo? E para algumas pessoas ainda não posso, já que sou mulher! Por que drogas sempre foram nos vendidas como coisas horríveis para a vida-sociedade-etc e esqueceram de nos contar o que há por trás disso de verdade? Por que maconha ainda é ilegal, sabendo dos benefícios e que 41% dos brasileiros assumem que já apertaram um (e 1,5 milhão fazem isso todo dia, e tão aí, vivendo, estudando, trabalhando…)? Por que eu não posso escolher não dar luz? E acima de tudo: por que eu não posso? Por que isso tudo é um tabu? Por que? E desde quando?
Quero ter liberdade para achar e pensar o que eu quiser, para viver fora dessa rede. Mas eu sei que se eu fizer isso serei considerada uma “louca-aborteira-feminazi-maconheira-drogada-etc” e não serei levada a sério.
Só abra sua cabeça.
Só.

(enquanto escrevia esse texto surgiu essa foto da Helozinha na minha timeline, achei justo coloca-la pra ilustrar o texto E CURTA A PAGINA, É DEMAIS! #GOHELOZINHA)

Happy

Esses dias uma amiga minha fez um desenho com 10 coisas que a fazem feliz (mandou bem, Helô) e eu fiquei pensando nisso. E são sim, as pequenas coisas. Como não consegui pensar em só 10, fiz uma lista das coisas que me fazem sorrir feito boba e ficar feliz.

BlTU2aoCIAARAlF

  • Quando o shuffle te manda aquela música do nada e você até fica meio boba e abalada. Nada melhor do que ouvir o que gosta, e de maneira inesperada então, melhor ainda.
  • Receber uma mensagem inesperada ao longo do dia, que te faça sorrir e esquecer do mundo. Aquele “saudades”, “eu te amo”, e meu favorito “meu, você não vai acreditar no que aconteceu”.
  • Dividir comida com os amigos. E melhor ainda quando você já pega as batatas sem pedir.
  • Frio lá fora e você quentinha dentro (com edredom, chocolate quente, filme, comida…. nham nham).
  • Um abraço que você nem sabe de onde veio.
  • “E aí, como foi seu dia” ou “bom trabalho/aula/afins”. Simples, mas importam.
  • Ser pega de surpresa, ter algo inesperado no seu dia.
  • Se identificar com algo. Pode ser uma música, HQ, livro, filme, qualquer coisa.
  • Vídeos que te façam rir (de preferência os non sense)
  • Cheiro de livro
  • Dialogar com o filme (ele diz uma fala e você já completa com a próxima hihi)
  • Cheiro de grama molhada
  • Tirar o sutiã no final do dia
  • Dançar sem vergonha com os amigos
  • Barulho de mar (ah, a onda estourando…)
  • Aqueles momentos antes de começar um show (luzes apagadas, banda entrando…)
  • Fogos de artifício (mas longe de mim)
  • Colo (de mãe, de amigo, de amor, de gato)
  • Dormir abraçado e acordar cada um de um lado
  • Descobrir o nome de uma música que não sai da sua cabeça
  • Acordar e ver que o dia está bonito
  • Dormir com barulho de chuva
  • Ter o meu gato andando atrás de mim
  • Colocar mais um item na minha lista “Antes dos 25” e saber que nunca vai rolar
  • Terminar um trabalho da faculdade
  • Ver sorrisos no meio do dia
  • Deixar o telefone tocando só para ouvir a música de toque
  • Fazer caretas (e receber uma de resposta)
  • Pessoas que lembram (“Lembra quando…?” ou “Ah sim, você comentou/vi em algum lugar”)
  • Ver fotos (principalmente antigas)

Dezenove

Tá, se você decidiu ler esse post, atenção ao seguinte trecho da música abaixo, e já pode dar play antes de ler:

You can be anything you want to be
Just turn yourself into anything you think that you could ever be
Be free with your tempo, be free, be free
Surrender your ego – be free, be free to yourself

Aos dezenove anos de idade decidi que ia viver e aproveitar cada minuto. Não queria mais “e se”, só buscava mais “lembra quando”. Talvez deixar de pensar e problematizar tudo, só deixar acontecer. E se arrepender por um ou dois dias, se fosse o caso – mas sabendo que não perdi uma oportunidade.

Me arriscar mais, deixar o medo de lado e ir em frente. Falar e fazer besteiras (afinal, estou na idade certa para fazer isso), ter surtos esperando as consequências, respirar fundo três vezes antes de algo acontecer. Quando fosse ruim, falar pra esquecer. E se fosse bom, compartilhar e lembrar.

E rir mais. Guardar cada risada e sorriso. Cada momento, cada história. Cada arrependimento como uma lição, cada conquista como a melhor coisa do mundo. Adicionando cada dia uma coisa nova a minha bagagem.

E repeti a promessa aos vinte anos.

224

Levanta a mão aí quem nunca sorriu ao ouvir uma música. Quem nunca chorou, quem nunca ficou arrepiado, quem nunca começou a rir, ou só ficou parado com cara de idiota lembrando de alguma coisa.

É, eu to fazendo isso agora, fiz alguns minutos atrás, e você mesmo sem perceber também fez.

Pode ser aquela memória ruim que te deixa no chão. Ou aquela coisa boa, aquela saudades, ou só algo bom de se pensar. É aquela vontade de sair dançando por aí, ou se entupir de sorvete de chocolate.

E aí está uma das maiores mágicas da musica. Ela entra em você, procura tudo na sua vida, e te traz aquilo que ela te lembra (seja aquele sorvete na praia ou aquela bad por causa de relacionamento). E o mais legal disso: a gente não percebe. Isso está tão dentro de nós que a gente percebe no meio, ou quando já acabou.

Quando você menos espera já esta flutuando por aí, em cima de alguma emoção que a música te trouxe. Pode ser até tédio quando a música é um porre, mas tem algo aí, pode admitir. Tem aquela vontade de abraçar, beijar, cantar.

E se vocês me perguntarem porque eu gosto tanto de música, a resposta é simples. Música é mágica.

Ela te leva para lugares, traz pessoas para você, te recorda momentos, cheiros e sabores, te faz rir e faz chorar, te faz ficar arrepiado e rir sozinho. E você não consegue mais viver sem essa mágica. Pra mim, ela é tudo na vida, é a magia mais importante enquanto respiramos.

Como? Que? Por que?

Eu sempre achei que precisassemos dar resposta quando escrevemos, e não deixar cada vez com mais perguntas na cabeça.
E aí eu li Borges em 2013 pela primeira vez.
E terminei o meu primeiro livro do Cortázar no começo de 2014.
É incrível, como as palavras de Cortázar prendem. E te fazem reler porque algo se perdeu na primeira letra.
As dúvidas permanecem no ar enquanto as histórias se desenrolam, e por mais que no fim você não tenha entendido nada (e ficado puta com isso) no fundo você sabe que amou.
E aí eu percebi que gosto mais da dúvida do que da resposta. Qual a graça da resposta? Vem tudo pronto, simples na sua mão. Não rola um suspense, um mistério, aquilo que só a dúvida trás.
Qual seria a graça da vida se soubéssemos o sentido dela? E se a gente soubesse tudo sobre o Universo? É, as coisas fariam sentido – e deixariam de fazer.
A dúvida tem um quê de mágica. É, como algo que passa por você e nem percebe. Passa rapidinho, você nem viu. Mas fica lá, te perturbando. É tipo perfume bom no metrô. A pessoa passou rápido, e o cheiro tá lá em você, te fazendo pensar nisso mais tempo do que gostaria.
Se você gosta de respostas rápidas e prontas, tente resolver algo bem difícil. Pode ser um exercício de física (o temor no Ensino Médio mas a paixão quando as peças se encaixam), uma conta complicada de matemática, tentar descobrir mais sobre Homero, ou tentar entender Donnie Darko por completo. Você vai ver, a dúvida vai te perseguir aonde você for. Você estará deitado e vai acordar as 4h da madrugada lembrando a fórmula que você precisava. Ou não vai descobrir nada, e depois de horas rachando a cabeça vai perceber que a dúvida te seduz cada vez mais. E é por isso que você ama tanto ela.
E se você acha que a resposta ainda é mais legal, eu te entendo. Tudo que é mais fácil geralmente é mais legal.
Mas tente. Só tente.

Catorze

Sao-Paolo

Era por volta de seis da manhã e o sol começava a aparecer tímido no horizonte. O vento enganava por ser uma das primeiras semanas de dezembro, mas fazia os pelos do braço e da nuca se arrepiarem e os ossos tremerem.

Apesar da noite anterior ter passado em claro e do horário errado para se estar fora da cama em um sábado de férias, a rua estava movimentada de carros e pessoas, e a caminhada de alguns quarteirões parecia mais demorada e divertida (ou peculiar?) do que geralmente.

As risadas e palavras (com ou sem sentido) preenchiam o ar com melodia. Os sorrisos diferenciavam aquele momento e os olhos brilhantes deixavam a dúvida se ainda eram resquícios do álcool ingerido, sono ou puro encantamento.

O dia nascia, as nuvens encobriam o sol tímido. As risadas cessavam, mas os sorrisos continuavam lá, em algum lugar. E a felicidade estava ali, marcando presença.

 

Dia 14.12.13 eu vi o dia nascer na Paulista, sentada no vão do MASP. Mesmo que não estivesse sol, foi um dos momentos preferidos na minha vida. 

Touch me

Sua mão tocou a minha levemente. Levantei meu olhar até que eu encarei sua boca. Ela estava semicerrada – prestes a formar um sorriso. Ergui meus olhos até os seus. Ele me encarava.

Um sorriso.

Um beijo roubado.

Um abraço.

A felicidade.

***** Club

“Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual… nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados”
Tyler Durden – O Clube da Luta